
(Quadro pintado por meu tio Rubinho representando a minha casa)
Escolhi este quadro para representar o meu universo do qual nasci e passei minha infância.
Este quadro foi pintado por meu tio Rubinho no ano de 1980, chamado “Quebra-pote na casa da Teleu”. Segundo ele este quadro representa a alegria da minha mãe e a alegria que existia em nossa casa.
Minha mãe está representada por aquela mulher sentada à direita do quadro.
Em 2005, quando fui visitar minha família em Maceió fui presenteada pelo meu tio com este quadro.
Minha família mora em Maceió e realizei as entrevistas por telefone.
Minha mãe “Terezinha” deu muitas risadas ao se lembrar das proezas que eu fazia quando criança. Minhas irmãs “Rita e Graça” falaram o tempo todo que eu era muito dengosa e birrenta. Também, que mandou elas me mimarem?
Sou a filha caçula de uma família de sete filhos.
Nasci no dia 14 de julho de 1959, às 0:30min na Maternidade Dr. Paulo Neto, em Maceió no estado de Alagoas.
Meu nome é Elizabeth e quem escolheu o meu nome foi o meu pai, segundo a minha mãe, assim ele fez em homenagem a rainha Elizabeth.
Na minha infância eu era muito magricela e minha mãe fazia muitos cachos no cabelo. Na frente do rosto eu tinha um cacho que era do meu pai, os outros cachos eram da minha mãe e dos meus irmãos, porém, tinha pavor de pentear os cabelos, também eram tantos cachos para fazer. Quando eu dizia “ninguém toca nos meus cabelos”, era um Deus nos acuda.
Morávamos na capital e tínhamos um sitio a uns sete quilômetros dali, todos os finais de semana íamos para lá. No inicio não havia luz elétrica, de noite meu pai acendia lampião e nós brincávamos de fazer sombras com o dedo na parede e guerra de travesseiro. Às vezes eu e minha irmã Rita íamos ao sítio vizinho ouvir Dona Antonia, que cuidava deste sítio contar as histórias de assombração, saiamos de lá sempre com medo. Às vezes meu pai nos acordava bem cedinho e nos levava até o curral para beber leite tirado na hora da vaca. Era uma fila indiana, eu era a última da fila. Odiava leite, minha mãe sem ele ver, colocava café e açúcar. O caseiro, sabendo de tudo colocava pouco leite e depois que eu bebia tudo meu pai dizia que eu ia “engordar e ficar bem forte”.
Era um sítio muito bonito, com muitas árvores frutíferas, animais, um rio que passava perto dele e um pouco mais adiante o mar.
Certa vez, uma porca pariu muitos porquinhos e um não conseguia mamar e estava morrendo, a mamãe levou ele para nossa casa, lá a gente dava mamadeira, banho, vestia ele com as roupas das bonecas e passeávamos pela rua com ele no carrinho de vime da minha boneca. Ele fazia um sucesso entre as crianças. Quando ele ficou forte, voltou para o sítio.
Quando chegou a luz elétrica papai fez uma linda casa no sítio e nós fomos morar lá.
Ali passei um bom pedaço da minha infância. Nossa casa, nos finais de semana, ficava cheio de gente (parentes e amigos). O caseiro preparava a carroça e meu primo nos levava a passear pelo sítio. Às vezes íamos tomar banho de rio ou banho de mar.
Como nossa casa sempre tinha muitas pessoas, minha mãe sempre dava um jeito de organizar brincadeiras para as crianças.
Sempre fui muito cuidadosa com os meus brinquedos, por isso, as pessoas gostavam de me presentear. Ganhei uma boneca do meu tio Rubinho, logo depois ele foi preso acusado de ser comunista e ficou desaparecido por aproximadamente cinco meses. Eu não deixava ninguém pegar na boneca.
Quando foi lançada a boneca Beijoca, eu desejei ardentemente ganhá-la. Pedi ao meu pai de presente de aniversário esta boneca.A festa já estava em andamento, quando meu pai chegou, chamei minhas colegas, primas, irmãs e fomos correndo para o carro. Fiquei decepcionada, pois não havia nenhum presente. Meu pai me perguntou: “O que você está procurando dentro do carro?” Eu quase chorando respondi: “Nada!”. Meu pai me pegou pela mão e abriu o porta-malas do carro. Que surpresa, lá estava a minha e tão sonhada boneca.
Minha mãe, na entrevista, contou do escândalo que fiz quando ela nos levou para assistir o filme A Noviça Rebelde.
O hall de entrada do cinema estava lotado, eu me sentindo sufocada, comecei a gritar que queria sair dali, como não consegui, comecei a beliscar e morder quem estava por perto. A mamãe coitada levou foi muitos xingões das outras mães que lá estavam.

Minha irmã, na entrevista, se lembrou do dia que quebrei o meu braço e, que naquela noite ninguém lá em casa não pode dormir de tanta manha que fiz. Na realidade era dor mesmo que sentia.
Também conversamos muito sobre quando eu inventei de brincar de cavalinho e o quanto ela avisou que aquela brincadeira não ia terminar bem, mesmo assim, coloquei meu primo de dois anos nos ombros e sai correndo. Realmente não deu, cai de rosto no chão e quebrei os dois dentes da frente. Segundo ela, mais manha. Eu repito: era dor mesmo.
Tenho viva em minha memória, muitas coisas que aconteceram comigo e com minha família e gostei de relembrar, de como tive uma infância feliz. Brincar fazia parte do meu cotidiano, porém, não podia deixar de lembrar de um momento que mudou muito as nossas vidas. Era dia dezesseis de setembro, feriado no estado de Alagoas, estávamos todos em casa e, como sempre algumas pessoas chegaram de surpresa, minha mãe que é uma excelente cozinheira já estava “a milhão” na cozinha preparando o almoço. Eu fui brincar numa goiabeira da qual eu gostava muito de subir e comer as goiabas, de repente, escutei um estampido e gritos de desespero vindo de dentro de casa, ao descer correndo da goiabeira cai.
Infelizmente, para toda nossa família um momento de tristeza, dor, angustia e sofrimento meu irmão mais velho tinha se suicidado.
Todos nós lá em casa guardamos lá no fundo da nossa memória este dia e lembramos, sempre com muito carinho e muito amor, de um jovem bonito, alegre, que cantava muito bem, tocava bateria, compunhas músicas e que gostava de contar piadas. Estar ao lado dele era pura diversão. Apesar de ter ficado sempre uma pergunta no ar: Por quê? é assim que ele é lembrado.
Primeiro papai vendeu o sitio, que era a paixão de minha mãe, depois ele quis ir embora de Maceió. Foi fácil, pois ele era gerente da Caixa Econômica Federal, então ele pediu transferência. Foi assim que vim parar no Rio Grande do Sul.
Sobre a minha vida escolar, lembro-me que meus irmãos já estavam estudando e eu chorava muito, pois, também queria estudar, mamãe me colocou no Jardim da Infância, eu tinha, na época, quatro anos. Chegando lá, chorava, mas desta vez com saudade da mamãe e querendo ir para casa. Até que eu me adaptei.
Minha primeira série fiz em outra escola mais perto de casa, minha professora era uma senhora velhinha muito calma e carinhosa com todos os alunos, todos nós a chamava de vovó Lídia. Era uma escola pequena, mas com muito calor humano.
Minha mãe na sua infância estudou no colégio Santíssimo Sacramento e sua paixão era que suas filhas fossem estudar neste mesmo colégio. Então, eu e minhas duas irmãs fomos estudar lá. Era um colégio muito grande e bonito onde só estudavam meninas. Pela primeira vez tive uma professora freira: a irmã Mercedes.
Todos os dias ao chegar na sala de aula ficávamos em pé, fazíamos o sinal da cruz e rezávamos a oração “Santo Anjo”. Só sentávamos depois que ela autorizava. Também quando chegava alguma pessoa na sala de aula, todas nós levantávamos e dizíamos “Bom Dia”!
A irmã Mercedes era um pouco rígida, andava pela sala de aula sempre segurando uma régua de madeira. Ninguém podia se levantar ou perguntar alguma coisa sem antes levantar a mão para ter a sua autorização. Lembro-me que nossa sala de aula era muito bonita e que tinha nos fundo um lindo aquário. Apesar de ser um colégio de padrões rígidos tenho grandes recordações dos momentos que ali passei.
Comments (1)
Anonymous said
at 12:54 pm on Jul 24, 2007
Oi Elizabeth!
Muito bacana tua história...
É sempre muito bacana conhecer pelo menos um pouco da história das nossas alunas...
Grande abraço,
Fabi
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